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Receita e lucro líquido das siderúrgicas têm queda no primeiro semestre de 2009, revela estudo da Serasa Experian

18/09/2009

A receita das empresas do setor siderúrgico, no primeiro semestre de 2009, apresentou queda de 28% e o lucro líquido, redução de 61%, demonstrando que o setor de siderurgia foi um dos mais prejudicados pela crise financeira internacional. É o que revela o Estudo da Serasa Experian, que analisa a queda da receita e do lucro das empresas, a partir de uma amostra de demonstrações contábeis encerradas em junho/2009.

Com relação aos clientes do setor siderúrgico, conforme a base de dados da Serasa Experian, verifica-se um rápido crescimento do número de títulos protestados a partir de setembro de 2008, com pico em janeiro de 2009, sendo superior ao registrado em toda a economia.

Os protestos totais contra os demandantes internos de aço (ponderados pela participação do consumo de aço em 2008) cresceram 84% de janeiro a junho de 2009 em relação aos do mesmo período do ano anterior. O total de títulos protestados no Brasil teve crescimento menos intenso, de 33,5% no mesmo período de comparação. Apesar do pico de protestos ter sido notadamente em janeiro, o indicador encontrou estabilidade em um patamar muito mais elevado do que o período pré-crise (ver Gráfico).

O crescimento do número de protestos contra os setores demandantes de aço não significa que as siderúrgicas registraram aumento da inadimplência na carteira de clientes nessa mesma proporção. Porém, a piora da capacidade de pagamento dos compradores de aço no País foi mais intensa do que a piora da capacidade de pagamento de toda a economia.

Esses números são reflexo das grandes mudanças sofridas pelo setor siderúrgico desde o agravamento da crise financeira internacional em setembro de 2008. A produção e as vendas caíram rapidamente no último trimestre do ano passado e se mantiveram, no primeiro semestre de 2009, no nível cerca de 40% inferior ao mesmo período de 2008, influenciado pelo menor nível de atividade econômica dos segmentos demandantes no mercado doméstico e internacional e por um movimento de redução dos estoques da indústria. Esse fatos obrigaram as siderúrgicas a rever seu planejamento com o desligamento de autofornos e a redução do número de empregados. As exceções foram a China e a Índia que apresentaram recuperação muito mais rápida e já estão produzindo volume maior em relação ao ano passado, apoiadas, majoritariamente, em seu crescente mercado interno.

Até setembro de 2008, o setor siderúrgico brasileiro vivia um dos melhores momentos de sua história recente, com aumento expressivo da produção e preços em níveis recordes.  Com o otimismo generalizado no setor, havia o planejamento por parte das siderúrgicas de dobrar a capacidade instalada no País em um período de 5 ou 6 anos.

Com o advento da crise, o governo adotou uma série de medidas anticíclicas que beneficiaram muitos setores demandantes de aço. O principal deles foi a redução da alíquota do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados) sobre veículos, eletrodomésticos e bens de capital que reduziu o preço final do produto elevando o volume de vendas. No caso de bens de capital, houve a criação de dois fundos garantidores de crédito e o setor de caminhões foi beneficiado com o financiamento de 100% do valor do veículo pelo BNDES.

No entanto, mesmo com essas medidas do governo, a recuperação das vendas de produtos siderúrgicos tem sido muito lenta e, segundo o Instituto Aço Brasil, o consumo doméstico somente retornará aos patamares de antes da crise em 2011 ou 2012. Se até agosto de 2008 a preocupação era de elevar a capacidade de produção para atender a crescente demanda interna, o problema se inverteu: há excesso de capacidade produtiva.

É possível utilizar o restante da capacidade instalada para exportação, porém há 3 grandes problemas com o comércio externo: 1) os principais setores demandantes de aço foram fortemente afetados pela crise fora do Brasil, 2) a taxa de câmbio não contribuiu para exportações e não apresenta perspectiva de que vá depreciar tão cedo e 3) A siderurgia mundial está hoje operando com cerca de 60% da capacidade instalada, o que estimula os demandantes de aço do mundo inteiro a comprarem aço dentro de suas fronteiras.

A perspectiva para o preço internacional do aço é de que se mantenha em um patamar reduzido até que o consumo mundial volte aos níveis de 2007 e 2008, o que pode durar alguns anos. Uma boa parte da recuperação recente da produção de aço mundial está apoiada em incentivos dos governos – o que não irá durar para sempre – e em uma leve tendência de reestocagem.

Diante de um cenário de excesso de capacidade instalada mundial, de uma expectativa de recuperação lenta da produção industrial dos setores demandantes, de aumento da inadimplência dos demandantes e de uma situação financeira um pouco menos confortável, fica nítido que o foco das siderúrgicas brasileiras sofrerá alterações.

Antes da crise, grande parte das empresas procurou aproveitar o “boom” econômico para ganhar market-share e crescer tanto organicamente quanto via aquisições. Se esse foco se mantiver daqui para frente, as conseqüências poderão ser preocupantes, uma vez que o setor poderá ficar superdimensionado com relação ao consumo e sofrer problemas financeiros. As empresas mudarão o foco de gestão, priorizando a geração de caixa em detrimento de aumento de market-share, além de buscar redução de custos e eficiência de modo a não comprometer (em) sua saúde financeira o que, de certa forma, já começou a ser feito neste ano.

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