Últimas Notícias

Estudos Econômicos

Investimentos nos segmentos ligados à infra-estrutura estão em declínio desde 2000, diz Serasa

18/01/2005

Um estudo inédito da Serasa, maior empresa do Brasil em pesquisas,
informações e análises econômico-financeiras para apoiar decisões de crédito e
negócios e referência mundial no segmento, elaborado a partir dos
demonstrativos contábeis de mais 11.000 empresas do setor de serviços, tais
como saneamento, energia elétrica, telecomunicações, transportes rodoviários e
de cargas, concessionárias de rodovias públicas, portos e construção civil,
mostra que os investimentos em ativos fixos realizados pelas empresas dos mais
importantes segmentos de infra-estrutura do país, apresentam declínio nos
últimos 4 anos. O indicador foi calculado com base na seguinte metodologia:
para cada ano, foi apurada a variação dos ativos imobilizados e o resultado
dessa variação foi dividido pelo faturamento do último exercício do período,
chegando-se ao índice de investimento que indica o percentual de faturamento
destinado a aplicações em ativos destinados à produção de serviços, como
máquinas, equipamentos e tecnologia.

Em 2000, os investimentos em ativos fixos representaram 19,6% do faturamento
anual. Desde 2001 eles vêm caindo sistematicamente chegando a 7,3% em 2003. No
ano de 2004, até setembro, o quadro não é diferente e os investimentos totais
situam-se em 6% do faturamento. Mesmo com o faturamento crescendo em 2004, em
função do aquecimento da economia, e com o retorno dos lucros em 2003 e 2004, a
carência de investimentos evidencia a necessidade da definição de regras claras
que viabilizem a inversão de novos recursos para dinamizar esse setor que é de
grande importância para o desenvolvimento do país.

A pesquisa aponta ainda que o faturamento cresceu menos, quando comparado ao
desempenho de todos os setores da economia, entre os anos de 1994 a setembro de
2004. Nesse período, o setor amargou altos prejuízos, reduziu os investimentos
em ativos fixos ao mesmo tempo em que aumentou seu endividamento. Tal quadro é
reflexo, em grande medida, da inexistência de um ambiente de negócios adequado
aos investimentos em infra-estrutura no país.

O faturamento das empresas do setor de serviços cresceu, nesses onze anos,
49,6%, ao passo que as empresas de todos os setores cresceu 71,4%. A margem de
lucro sobre o faturamento também é maior para todo o mercado que para as
empresas do setor de serviços. No período, a taxa anual média de lucro do
mercado ficou em torno de 2,8%, ao passo que para o setor de serviços foi de
0,7%, em função dos prejuízos do período.

A demora na definição de regras para os setores ligados à infra-estrutura e
de serviços de utilidade pública e o fraco desempenho da economia no período,
limitaram a realização de investimentos por parte das empresas do setor. No
período, a taxa média de crescimento dos investimentos em ativos fixos foi
insuficiente para compensar a inflação acumulada no período. Tal fato, implicou
uma redução acumulada dos ativos imobilizados pelo setor de 21% no período de
1993 a 2004.

Quatro ciclos

No estudo elaborado pela Serasa foram identificados quatro ciclos ocorridos
entre 1994 e 2004. O primeiro ciclo apontado começa em 1994 e vai até 1996.
Esse período é caracterizado pela estabilização monetária, que inseriu um maior
número de pessoas no mercado consumidor e significou um aumento no faturamento
das empresas em geral. Enquanto o faturamento das empresas em geral cresceu 26%
no acumulado dos três anos, o das prestadoras de serviços evoluiu em menor
proporção, 15,3%, devido, principalmente, ao congelamento das tarifas públicas
nos anos de 1994 e 1995 – expediente utilizado à época para redução das
pressões inflacionárias – que impactou as então empresas estatais, em especial,
as de energia, telefonia e saneamento. A queda no faturamento dessas empresas
afetou sua lucratividade. No período, o setor de serviços amargou 1% de taxa de
prejuízo anual médio. Estes prejuízos, no entanto, não impactaram os
investimentos realizados pelas empresas do setor. As taxas de investimento
anual como percentual do faturamento nesse ciclo foram as maiores de todo o
período analisado, ficando, em média, próximas a 20%. O saneamento das contas
das estatais que seriam privatizadas, bem como a necessidade de mantê-las
atrativas ao investidor privado, explicam a manutenção dos investimentos
realizados pelo setor no período.

Entre 1997 e 1999, considerado aqui como o segundo ciclo, aconteceram vários
fatores adversos, tais como as crises financeiras dos países do sudeste
asiático, a moratória da Rússia, o aumento das taxas de juros e a mudança do
regime cambial, com a adoção do câmbio flutuante. Nesse período, o governo
reajustou as tarifas públicas, visando dar continuidade ao processo de atração
de compradores das empresas que seriam privatizadas. Após a privatização dos
setores de telefonia (concluída em 1998) e de energia elétrica, que ocorreu
nesse ciclo, as empresas conseguiram incrementar seu faturamento através de
significativa melhora e ampliação dos serviços prestados, com conseqüente
aumento na base de clientes. Com isso, o faturamento cresceu, no período,
14,4%. O ano de 1999, no entanto, destoa dos demais, apresentando queda de 3%.
As restrições na renda disponível das famílias, bem como a mudança cambial,
afetaram a economia como um todo e vários setores de serviços como transportes,
construção civil e energia elétrica foram afetados.

O ano 2000 foi marcado pela excelente dinâmica da economia brasileira
caracterizada pelo bom desempenho das exportações, continuidade das
expectativas positivas dos consumidores, melhora do nível de emprego, redução
das taxas de juros, queda da inadimplência e maior volume de crédito concedido,
fatores que garantiram o aumento dos negócios das empresas do setor. Como
conseqüência, ocorreu o aumento do endividamento em função do novo patamar de
negócios, sem comprometer a rentabilidade. O destaque deste período, fica por
conta do setor de telefonia, que teve maior demanda por serviços, apresentando
crescimento de 22,8% no número de telefones instalados, bem como ampliação de
62,2% nos acessos de telefone celular. Ainda neste ano, o segmento foi
beneficiado pelo reajuste das tarifas de telefonia fixa.

No ciclo de 2001-2003, o setor de serviços foi fortemente impactado pela
elevação da taxa de câmbio, pelo menor nível de atividade econômica, perda de
poder aquisitivo da população, alto índice de desemprego, restrições
creditícias, incertezas geradas pela eleição presidencial e altas taxas de
juros. A exceção foi o segmento de energia elétrica, que em 2001 celebrou
acordo com o Governo Federal para garantir as receitas contratuais, registrando
um incremento de 20,6% no faturamento, fato que não se repetiu em 2002. Apesar
da manutenção do nível de geração de caixa, medida pelo Ebitda, o lucro se
reduziu para 0,3% em 2001 e houve prejuízo de 5,4% em 2002, causado pela
elevação dos juros e do câmbio, principalmente em 2002. Em 2003 com a redução
das taxas de juros e do câmbio no segundo semestre a rentabilidade foi
beneficiada, chegando-se a 4,5% do faturamento, o maior lucro em 10 anos.

O ano de 2004 marca a retomada do crescimento econômico, que beneficiou todo
o setor. O faturamento cresceu 5,4%, muito próximo dos 5,5% obtido pelos demais
segmentos, influenciado pela recuperação da maioria dos segmentos da economia,
bem como pelo maior nível de emprego, da massa salarial e aumento do volume de
crédito, embora as taxas de juros ainda permaneçam em patamares elevados. A
geração de caixa das empresas, medida pelo Ebitda, e a rentabilidade também
voltam a crescer, permitindo pequena redução do nível de endividamento. No
entanto, a taxa de investimento em ativos fixos foi a mais baixas dos últimos
11 anos. Nesse ano ela representou 6,0% do faturamento líquido contra 23,1%
obtida em 1994.

PPP

Um fato importante que deve contribuir para a melhora do desempenho do setor
de serviços ligados à infra-estrutura é a recente aprovação do projeto de lei
da Parcerias Público-Privadas (PPPs) que permitirá a concessão de serviços de
obras públicas à iniciativa privada, que poderá realizar investimentos com a
contrapartida de garantia de rentabilidade mínima para empreendimentos
importantes socialmente, mas com baixo retorno econômico.

  • 2017 Serasa Experian. Todos os direitos reservados.